quinta-feira, 30 de abril de 2026

Ressignificar a maternidade

 

A algum tempo venho feito um estudo em grupo sobre os 12 Elos Dependentes através dos textos de Lama Padma Samten do budismo vrajnaiana. Estavamos discutindo 12° elo, Jaramarana, que discute a dissolução de todas as ilusões que foram se construindo nos 11 elos anteriores e o retorno ao primeiro elo. O elo Jaramarana significa o fim e também retorno a Avidya. Durante o debate a história do aborto espontâneo foi revivida.

No outro dia vi uma morte de um desconhecido que enfartou num bar a qual passo na frente toda vez que vou na academia, tal fato me tocou apesar de ser um estranho. Uma amiga que está atualmente no Japão, após dizer que passou por um problema que precisou de conselhos de um monge (que constatei ser do budismo Terra Pura). No dia seguinte ela me disse o motivo de precisar de tal conselho, tinha sido um aborto espontâneo. Revivi novamente o que passei nas experiências de aborto que tive. 

No meio de conselhos e compartilhamento de grupos de apoio, revisitei antigos textos que escrevi e cheguei a conclusão precisava escrever um texto novo. A Ong Amada Helena também abriu inscrições para textos sobre a perda gestacional. 

Vida e morte em dois dias apareceram novamente... Perguntei novamente: o que isto estava querendo me ensinar?... Saiu alguns textos que estarão transcritos a seguir.

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Ressignificar não foi fácil, além da falta de empatia familiar, tem a invisibilidade e o silenciamento da sociedade, o luto não reconhecido. Conheci uma rede secreta de mães invisíveis, que perderam filhos em etapas diferentes da gravidez, algumas com filhos natimortos, outras em que os filhos não saíram da encubadora, outras que perderam filhos por outros motivos ainda bebês. Todas tentando catar novamente os caquinhos que sobraram da construção da maternidade que um dia se quebrou. Por mais que se tente "colar este vaso", os cacos vão estar sempre lá, nos lembrando que nunca mais seremos inteiros novamente.

Outros dois abortos se sucederam ao primeiro, e novamente chorei pelos filhos que perdi. Veio o luto da perda das possibilidades de engravidar com a histerectomia, veio o luto da minha professora de budismo que nos abraçou no primeiro aborto, veio a morte do meu pai... 

Houve aprendizado? Sim, talvez o despertar de um ser humano mais empático, menos preconceituoso, com menos ânsia em querer acabar com a dor alheia de forma superficial e simplista como costumam fazer todos que se deparam com a dor alheia. A perda de um filho nos torna pessoas com valores menos egoístas e fúteis, problemas materiais se tornam menos relevantes, certas "brigas" não valem mais a pena... Quem perde um filho já perdeu a coisa mais relevante da sua vida.

A perda deste filho me fez assumir preceitos budistas, religião que tem como base a explicação e ressignificação do sofrimento, foi a crença que mais me fez ter entendimento do processo que vivi. Exatamente num grupo de estudos budistas, à poucos dias, ao estudar os processos que nos levam ao sofrimento, revisitei o período que contruí a maternidade que em poucos meses desmoronou. A contrapartida da vida esta na morte (ou não vida), ambas faces da mesma moeda. Se amamos, se nos apegamos, sabemos que sentiremos a falta quando um dia o motivo de nosso amor e apego deixar de existir. Uma verdade tão conflitante e tão inevitável... 

Como não sofrer? Não temos poder nenhum de evitar a dor, isto "não é opcional", isto é a impermanência da vida, são coisas que não podemos controlar. Podemos fazer escolhas, uma delas é achar um novo sentido, um novo propósito, aprender com o que a dor tem a nos ensinar. Um dia perguntei pra dor: Já que você não vai embora, afinal, o que você quer dizer, o que quer me ensinar? Escutei a criança que um dia foi mal maternada, que um dia teve que procurar seu próprio abrigo. Eu tinha que maternar esta criança também que um dia teve calar muitas dores pra tentar sobreviver. 

Esta maternidade acabou com a perda do bebê? Não! Talvez os ideais e as expectativas da maternação, as experiencias que deixaram de ser construídas como mãe tenham. Não vou entrar no discurso que "me tornei mãe no positivo e não exerci a maternidade porque meu filho não veio", pois enquanto estive gravida eu exerci a maternidade. Ainda a exerço hoje quando procuro viver um dia de cada vez, me reconstruindo e cuidando de mim, aprendendo o que mais esta dor tem a me ensinar. Pois se meus filhos estivessem aqui, eles iam querer meu bem estar, uma mãe que se reconstruísse.

Se viessem com a proposta: você trocaria tudo isto por ter seus filhos contigo? Eu diria, sim! Mas sei que esta escolha não tenho. Talvez este tenha sido este o maior ensinamento destes filhos nos quais tenho a minha mais profunda gratidão. Meus filhos estão no altar budista que tenho em casa junto das pessoas queridas que presto homenagem. Existem sim uma mãe após tudo o que aconteceu.

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9 anos o teste de gravidez positivou, em pouco tempo construí a mãe que seria para este filho, em 11 semanas o aborto espontâneo e uma curetagem, fizeram a mãe construída se quebrar em caquinhos. Nestes anos fui colando estes cacos quebrados, tentando reconstruir esta maternidade, ou o que sobrou dela. Ela ainda existe? Sim, existe! Dizem que um exame positivo de gravidez nos torna mãe, o nascimento nos faz exercer a maternidade. Mas me permitam uma correção: Toda mãe desde um Beta-HCG positivo exerce a maternidade! Toda mulher que deseja ser mãe a exerce! Maternar começa na construção, na vontade de ser mãe. E a resposta de fato é: A maternidade nunca deixou de existir. Tive mais dois abortos, em todos nasceu uma mãe, em todos exerci a maternidade, nem que seja lamentando a partida de cada um deles. A mãe ainda existe, modificada, ressignificada, mais empata, e menos atenta a futilidades. Os cacos colados são a manifestação desta maternidade que ainda existe!



Obs.: os doze elos dependentes são: Avidya; Samskara; Vijnana; Nama-rupa; Shandayatana; Sparsha; Vedanta; Trishna; Upadana; Bhava; Jati; Jaramarana. Lama Padma Samten tem um estudo muito interessante sobre o assunto.


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